A Receita Federal publicou a Portaria RFB nº 695/2026, regulamentando a identidade institucional do Programa Confia e estabelecendo regras para o uso da marca e do Selo Confia pelas empresas admitidas no programa de conformidade cooperativa fiscal.

À primeira vista, pode parecer apenas uma norma de padronização visual. Mas, na prática, a medida reforça uma tendência cada vez mais importante para o ambiente empresarial: a conformidade fiscal está deixando de ser apenas uma obrigação interna e passando a funcionar também como ativo reputacional.

Para empresas com estrutura fiscal robusta, indústrias, agroindústrias, distribuidoras, grupos empresariais e companhias que se relacionam com bancos, fornecedores, investidores, administração pública e grandes contratantes, demonstrar boas práticas tributárias pode se tornar um diferencial competitivo.

O que é o Programa Confia

O Confia é o Programa de Conformidade Cooperativa Fiscal da Receita Federal. A proposta é estimular uma relação mais transparente, preventiva e colaborativa entre o Fisco e os contribuintes, especialmente empresas com maior complexidade tributária e estrutura de governança mais desenvolvida.

A lógica do programa está ligada à confiança, à transparência e ao gerenciamento de riscos. Em vez de um relacionamento baseado apenas em fiscalização posterior, autuação e litígio, a conformidade cooperativa busca criar um ambiente de maior previsibilidade entre administração tributária e contribuinte.

Nesse contexto, o Selo Confia representa uma forma de identificação das empresas admitidas no programa e que cumprem as exigências estabelecidas pela Receita Federal.

Por que o selo importa para o mercado

O ponto mais relevante não está apenas no selo em si, mas no que ele comunica.

Uma empresa que demonstra conformidade fiscal transmite ao mercado sinais importantes: organização, controle interno, regularidade, menor exposição a passivos e maior maturidade de governança.

Isso pode ter reflexos em diversas relações empresariais.

Bancos podem enxergar menor risco em operações de crédito.

Fornecedores podem ter mais segurança em contratos de longo prazo.

Clientes corporativos podem considerar a conformidade fiscal como critério de contratação.

A administração pública pode valorizar empresas com histórico de regularidade.

Investidores podem avaliar positivamente estruturas tributárias mais transparentes.

Em outras palavras, estar regular pode deixar de ser apenas obrigação mínima e passar a ser elemento de reputação empresarial.

Governança tributária não é apenas pagar tributo

A publicação da portaria reforça um ponto importante: conformidade fiscal não se resume ao pagamento de tributos.

Empresas precisam demonstrar controles, processos, documentação, coerência nas informações prestadas ao Fisco, gestão de riscos, rastreabilidade das decisões tributárias e capacidade de responder de forma organizada a questionamentos da administração tributária.

Isso envolve áreas diferentes da empresa: fiscal, contábil, jurídico, financeiro, compras, faturamento, contratos, tecnologia e controladoria.

Uma inconsistência em nota fiscal, classificação fiscal, retenção, obrigação acessória, aproveitamento de crédito ou operação entre empresas do mesmo grupo pode gerar impacto relevante.

Por isso, a governança tributária deve ser tratada como parte da gestão empresarial, e não apenas como tarefa operacional do departamento fiscal.

O impacto para indústrias, agroindústrias e distribuidoras

Empresas industriais, agroindústrias e distribuidoras costumam ter operações tributárias mais complexas. Há compras recorrentes, créditos, insumos, circulação de mercadorias, transporte, regimes especiais, retenções, benefícios fiscais, obrigações acessórias e grande volume documental.

Nessas empresas, qualquer falha de controle pode gerar passivo significativo.

Além disso, muitas dependem de relacionamento com bancos, grandes compradores, fornecedores estratégicos e órgãos públicos. A capacidade de demonstrar conformidade fiscal pode fortalecer a imagem da empresa em negociações, auditorias, processos de crédito e relações comerciais.

A conformidade deixa de ser apenas uma defesa contra autuação e passa a integrar a estratégia de confiança da empresa perante o mercado.

O uso do Selo Confia exige responsabilidade

O Selo Confia não é um elemento meramente promocional. Ele depende da admissão no programa e do cumprimento das exigências estabelecidas pela Receita Federal.

Isso significa que seu uso deve ser cuidadoso, correto e alinhado às regras oficiais. A empresa que utiliza uma identificação de conformidade fiscal precisa ter segurança de que seus processos internos sustentam essa imagem.

O risco reputacional de se apresentar como empresa conforme, sem ter controles compatíveis, pode ser elevado.

Por isso, a preparação para programas de conformidade deve começar antes da candidatura ou da obtenção de qualquer selo. É necessário revisar procedimentos, mapear riscos, organizar documentos, corrigir inconsistências e estruturar uma rotina contínua de controle tributário.

O que as empresas devem revisar

A regulamentação do Selo Confia é uma oportunidade para empresas avaliarem sua maturidade fiscal.

Algumas frentes merecem atenção:

Revisão de obrigações acessórias.

Mapeamento de riscos fiscais recorrentes.

Análise de créditos tributários utilizados.

Revisão de classificação fiscal de produtos e serviços.

Conciliação entre documentos fiscais, contabilidade e declarações.

Verificação de contingências tributárias.

Revisão de contratos com impacto fiscal.

Análise de operações entre empresas do mesmo grupo.

Organização de políticas internas de conformidade tributária.

Documentação das decisões fiscais relevantes.

Essas medidas reduzem risco, melhoram a qualidade da informação e fortalecem a governança empresarial.

Conformidade fiscal como vantagem competitiva

Em um ambiente de maior cruzamento de dados, fiscalização digital e pressão por arrecadação, empresas organizadas tendem a ter vantagem.

A empresa que conhece seus riscos, documenta suas decisões e mantém controles internos consistentes consegue responder melhor a fiscalizações, negociar com mais segurança, evitar autuações desnecessárias e construir reputação de confiabilidade.

Esse movimento também acompanha uma mudança cultural: a conformidade tributária passa a ser vista como sinal de maturidade empresarial.

Para determinados setores, isso pode influenciar diretamente o acesso a crédito, a participação em cadeias de fornecimento, a contratação por grandes empresas e a relação com órgãos públicos.

Conclusão

A Portaria RFB nº 695/2026, ao regulamentar a identidade institucional e o Selo Confia, reforça uma tendência clara: a Receita Federal caminha para valorizar e dar visibilidade a empresas com boas práticas de conformidade fiscal.

Para o mercado, esse movimento mostra que regularidade tributária não deve ser tratada apenas como obrigação legal. Ela pode se transformar em reputação, confiança e diferencial competitivo.

Empresas que desejam estar preparadas para esse novo cenário precisam investir em governança tributária, auditoria preventiva, revisão de controles internos e mapeamento de riscos fiscais.

A pergunta que fica é: sua empresa apenas cumpre obrigações fiscais ou consegue demonstrar, com segurança, que possui uma cultura real de conformidade?

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