No RenovaBio, uma informação incorreta não é apenas um problema de planilha. Ela pode comprometer a credibilidade de toda a cadeia de certificação.

Uma usina pode possuir uma operação eficiente, bons indicadores agrícolas e industriais e condições para participar do mercado de CBIOs.

Mas existe uma pergunta que merece ser feita antes da próxima certificação:

a empresa consegue provar de onde saiu cada informação utilizada para demonstrar sua eficiência energético-ambiental?

Em 31 de agosto de 2026, a página oficial da ANP registrava a abertura da Consulta Pública nº 1046/2026, envolvendo a Agrovale, com período de 31 de agosto a 30 de setembro, no âmbito dos processos de certificação do RenovaBio. A própria ANP explica que essas consultas integram o processo de certificação de produtores de biocombustíveis e que os documentos permanecem disponíveis para análise e contribuições.

O fato não representa uma nova obrigação geral para todas as usinas.

Mas representa um excelente alerta para empresas sucroenergéticas:

certificação depende de dados, e dados precisam possuir origem, rastreabilidade e consistência.

O CBIO começa muito antes da emissão

A certificação envolve informações produzidas ao longo de diferentes etapas da operação.

Origem da matéria-prima.

Produção agrícola.

Produtividade.

Consumo de insumos.

Processamento industrial.

Consumo energético.

Rendimento.

Dados ambientais.

Essas informações não nascem necessariamente no departamento responsável pelo RenovaBio.

Elas podem ser produzidas no campo, na indústria, no laboratório, no sistema de gestão ou por fornecedores.

Quanto mais áreas alimentam a informação, maior a necessidade de governança.

O problema aparece quando alguém pergunta “de onde veio esse número?”

Imagine que determinada informação tenha sido utilizada no processo de certificação.

O número está correto?

Quem produziu?

Qual sistema registrou?

Quando foi coletado?

Existe documento que comprove?

Houve alteração?

Quem aprovou?

A informação enviada à firma inspetora corresponde ao dado existente no sistema interno?

Essas perguntas parecem burocráticas até o momento em que uma auditoria precisa respondê-las.

A ANP informa que as consultas públicas fazem parte do processo de certificação e que a firma inspetora analisa as contribuições recebidas, inclusive verificando se determinados apontamentos justificam averiguações ou auditorias posteriores.

Isso reforça a importância de preservar a cadeia de evidências.

RenovaBio também é governança de dados

Para uma usina, o tema não deveria ficar restrito à área ambiental.

O Jurídico precisa compreender as responsabilidades.

A área agrícola precisa garantir a origem e consistência das informações.

A indústria precisa controlar os dados produtivos.

Sustentabilidade ou Regulatório consolida as informações.

A diretoria precisa compreender o risco associado à certificação.

Essa integração evita que o processo dependa de conhecimento concentrado em uma única pessoa.

O que fazer antes da próxima certificação

A empresa pode mapear as informações utilizadas no processo e identificar sua origem.

Para cada dado relevante, deve ser possível estabelecer uma cadeia mínima:

origem → responsável → sistema ou documento → validação → utilização na certificação.

Esse procedimento também permite identificar informações produzidas manualmente ou que dependam de controles paralelos.

Quanto maior a importância econômica do dado, maior deve ser a preocupação com sua rastreabilidade.

O risco não está apenas em perder um benefício

A questão envolve também credibilidade.

Se uma informação relevante não puder ser explicada, a empresa pode precisar responder a questionamentos, corrigir dados ou enfrentar novas verificações.

Por isso, o melhor momento para descobrir uma fragilidade documental é antes da auditoria.

O CBIO pode ser resultado de uma eficiência operacional real. Mas a empresa precisa conseguir provar, com dados confiáveis, como chegou aos números utilizados na certificação.

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