Sua empresa depende da escala 6x1, já calculou quanto custaria operar com 40 horas semanais e dois dias de descanso?

Por AN Advogados · · 4 min de leitura

Até agora, grande parte do debate sobre o fim da escala 6x1 esteve concentrada em argumentos sociais e políticos.

Para empresas que funcionam seis ou sete dias por semana, existe uma segunda discussão que precisa começar imediatamente:

como manter a mesma operação se o desenho constitucional da jornada mudar?

A PEC 221/2019 está em tramitação no Plenário do Senado e, conforme atualização oficial de 13 de outubro, a votação em primeiro turno está prevista para 14 de outubro de 2026. Portanto, a data de 15 de outubro indicada inicialmente no material precisa ser corrigida. A proposta ainda não é regra vigente.

O texto reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, preserva o limite de até oito horas diárias e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial.

Uma eventual aprovação amanhã não muda a escala das empresas no dia seguinte

Esse ponto precisa ser esclarecido.

A PEC precisa ser aprovada em dois turnos no Senado, com pelo menos três quintos dos votos — 49 senadores — em cada votação. Se houver alterações que exijam nova deliberação da Câmara, a tramitação continuará antes de eventual promulgação.

O próprio texto também prevê transição.

Na redação atualmente em análise, dois meses após a publicação da emenda o limite semanal passaria para 42 horas. Depois de um ano e dois meses, chegaria às 40 horas.

A proposta admite compensação por negociação coletiva e prevê mecanismos específicos relacionados ao repouso, além da possibilidade de tratamento diferenciado em situações previstas no texto.

Portanto, não existe hoje uma nova jornada obrigatória de 40 horas.

Existe, porém, um cenário legislativo suficientemente concreto para justificar planejamento.

Para uma operação 6x1, quatro horas não são apenas quatro horas

Imagine um supermercado com 500 empregados operacionais.

Reduzir quatro horas semanais de cada contrato significa retirar 2.000 horas de trabalho da capacidade semanal da operação, antes mesmo de considerar o efeito da mudança sobre os dias de descanso.

Essas horas precisarão desaparecer, ser absorvidas por produtividade, redistribuídas entre empregados ou substituídas por novas contratações.

É por isso que o impacto não deve ser calculado apenas como percentual de redução da jornada.

É necessário reconstruir a escala.

Quantos empregados são necessários por faixa horária?

Quais setores possuem picos?

Quanto da operação ocorre aos sábados e domingos?

Quais funções são críticas?

Onde já existe dificuldade de contratação?

Qual é o impacto sobre DSR, horas extras, banco de horas e adicionais?

Para supermercados, centros de distribuição, indústrias contínuas e agroindústrias, essa simulação pode produzir resultados muito diferentes entre áreas da mesma empresa.

A redução sem diminuição salarial aumenta a relevância da produtividade por hora

O texto preserva os salários.

Isso significa que, se a jornada efetivamente cair, o custo da hora contratada tende a aumentar.

Para a empresa, a consequência pode aparecer em diferentes lugares: custo unitário, necessidade de contratação, dimensionamento de equipes, produtividade e preço.

O debate empresarial não deveria se limitar a afirmar que a mudança será cara ou barata.

Cada empresa precisa calcular.

Uma operação automatizada pode absorver a redução de maneira diferente de uma atividade intensiva em atendimento presencial.

Uma loja com dificuldade de recrutamento enfrenta problema diferente de uma indústria que consegue reorganizar turnos.

A negociação coletiva continuará relevante

A redação em discussão preserva espaço para acordo e convenção coletiva em matérias relacionadas à compensação e organização da jornada dentro dos limites constitucionais propostos.

Para grandes empregadores, isso significa que o planejamento não deve ocorrer apenas internamente.

Sindicatos, instrumentos coletivos existentes e peculiaridades de cada categoria podem se tornar parte importante da transição.

Mas o momento de começar a calcular é anterior à eventual promulgação.

O Jurídico não precisa esperar a PEC virar norma para ajudar a empresa

Não se trata de mudar escalas agora.

Trata-se de criar cenários.

A empresa pode simular 42 e 40 horas, identificar áreas mais expostas, estimar novas contratações e avaliar diferentes arranjos operacionais.

Se a PEC não avançar, esse estudo terá servido para compreender melhor a produtividade da organização.

Se avançar, a empresa não começará a discutir sua adaptação no dia em que a nova regra for publicada.

A PEC ainda não alterou a jornada dos empregados. Mas já pode alterar a qualidade do planejamento de quem depende da escala 6x1.