A mudança é tributária para o pequeno fornecedor, mas o efeito econômico pode voltar para quem compra.
O fornecedor emite uma fatura de R$ 200 mil hoje. Pela política da empresa contratante, o pagamento ocorrerá em 60 ou 90 dias.
Durante esse intervalo, o pequeno prestador precisa manter folha, comprar insumos e continuar entregando o serviço. A partir de 2027, uma mudança na sistemática do Simples Nacional poderá aumentar essa pressão.
O material de referência informa que o Comitê Gestor do Simples aprovou a extinção da opção pelo regime de caixa na apuração mensal. Pela nova disciplina divulgada pela Receita, a receita passará a ser reconhecida pelo faturamento da operação, em regra vinculado à emissão do documento fiscal, com efeitos previstos a partir de 1º de janeiro de 2027. Hoje, empresas que utilizam o regime de caixa conseguem considerar, na apuração mensal, os valores efetivamente recebidos.
Para uma grande companhia fora do Simples, isso pode parecer um problema de terceiro. Não é necessariamente.
O custo financeiro pode voltar na próxima negociação
Quando o tributo precisa ser considerado antes do recebimento, o fornecedor passa a financiar não apenas sua própria operação, mas também a diferença entre o faturamento e a entrada efetiva do dinheiro.
Empresas com bom capital de giro podem absorver parte desse efeito. Fornecedores menores ou com margens reduzidas podem reagir de outra forma.
A próxima negociação pode trazer preço maior, redução de desconto, exigência de prazo mais curto ou pedido de antecipação.
Em casos mais críticos, a pressão de caixa pode afetar capacidade de compra de insumos, pagamento de empregados e continuidade do fornecimento.
Assim, uma política criada para preservar o caixa do comprador pode contribuir para fragilizar um parceiro estratégico.
Nem todo fornecedor merece o mesmo nível de preocupação
A empresa não precisa revisar individualmente todos os prestadores de pequeno valor. O foco deveria estar naqueles cuja substituição é difícil ou cuja interrupção afetaria a operação.
Manutenção especializada, fornecimento exclusivo, transporte regional, peças específicas ou serviços críticos são exemplos de situações em que a fragilidade financeira do fornecedor pode se tornar risco operacional do contratante.
Compras e Financeiro deveriam identificar fornecedores estratégicos enquadrados no Simples e cruzar essa informação com prazos longos de pagamento.
A análise não significa necessariamente antecipar pagamentos. Significa conhecer o efeito da política financeira e decidir conscientemente se o prazo continua economicamente adequado.
Prazo de pagamento deixa de ser apenas negociação comercial
O tema mostra novamente como a Reforma Tributária aproxima departamentos que tradicionalmente trabalhavam separados.
Compras negocia o prazo. Financeiro protege o caixa. O fornecedor administra o tributo. Mas o efeito final pode voltar ao custo da contratação.
O imposto continuará sendo obrigação do fornecedor. Porém, se ele precisar financiá-lo antes de receber da sua empresa, essa diferença poderá reaparecer no preço, nas condições comerciais ou no risco de continuidade da cadeia.
Por isso, a pergunta para 2027 não é apenas quanto a empresa consegue alongar seus pagamentos.
É quanto custa, para os fornecedores críticos, financiar esse prazo.
AN Advogados