Quase 11 milhões de empresas já foram classificadas

A conformidade tributária deixou de ser analisada apenas quando surge uma fiscalização, uma certidão negativa é exigida ou um débito impede determinada operação.

A Receita Federal passou a atribuir uma classificação às empresas por meio do Programa Receita Sintonia. No ciclo divulgado em 16 de julho de 2026, com informações apuradas em junho, 10.892.593 pessoas jurídicas ativas foram enquadradas nas categorias A+, A, B, C ou D.

Foram classificadas como A+ aproximadamente 1,67 milhão de empresas. No outro extremo, mais de 3,13 milhões receberam classificação D, correspondente a grau de conformidade inferior a 70%.

Isso significa que a Receita já possui uma leitura estruturada sobre o comportamento tributário de grande parte das empresas brasileiras — inclusive das optantes pelo Simples Nacional.

A classificação ocorre automaticamente

A inclusão no Receita Sintonia não depende de inscrição, candidatura ou autorização prévia da empresa.

São abrangidas, em regra, pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, presumido ou arbitrado, entidades imunes ou isentas e empresas optantes pelo Simples Nacional. Ficam de fora, entre outros, os microempreendedores individuais, empresas com menos de seis meses de CNPJ e determinadas entidades públicas.

Portanto, muitos empresários podem já ter uma classificação sem que tenham consultado o sistema ou compreendido como ela foi formada.

O que a Receita considera para atribuir a nota

A classificação não se limita à existência ou inexistência de débitos.

A Receita avalia quatro grandes áreas:

  • regularidade cadastral;
  • entrega de declarações e escriturações;
  • consistência das informações prestadas;
  • regularidade dos pagamentos.

O domínio relacionado à consistência das informações possui peso maior no cálculo. Isso significa que entregar todas as obrigações no prazo pode não ser suficiente quando os dados apresentados em diferentes declarações, escriturações, documentos fiscais e pagamentos não coincidem.

Além disso, a situação cadastral diferente de ativa pode gerar nota mensal zero. A ausência de entrega de uma das declarações ou escriturações consideradas pelo programa também pode zerar a avaliação do respectivo mês.

A nota final corresponde à média das avaliações mensais do período considerado:

  • A+: conformidade igual ou superior a 99,5%;
  • A: de 97% a 99,4%;
  • B: de 90% a 96,9%;
  • C: de 70% a 89,9%;
  • D: inferior a 70%.

A classificação é atualizada trimestralmente. Portanto, não se trata de um certificado permanente, mas de um indicador que pode melhorar ou piorar conforme o comportamento da empresa e a qualidade das informações transmitidas ao Fisco.

A nota será pública?

O detalhamento da pontuação e a classificação final são, em regra, de conhecimento exclusivo da própria empresa. A divulgação a terceiros depende de autorização do contribuinte.

A principal exceção está nas empresas que obtêm o Selo Sintonia A+. A relação dessas empresas é divulgada publicamente pela Receita Federal, independentemente de autorização.

Isso significa que clientes, fornecedores, investidores e instituições financeiras não possuem acesso automático às classificações A, B, C ou D. Podem, contudo, solicitar que a própria empresa apresente sua classificação ou autorize sua divulgação durante processos de crédito, contratação, homologação de fornecedores ou auditoria.

Não existe, até o momento, uma regra geral obrigando bancos ou clientes privados a exigir essa informação. Mas a estrutura para seu uso como credencial empresarial já foi criada.

A conformidade pode se transformar em ativo reputacional

O Selo A+ foi concebido para produzir vantagens concretas.

Entre os benefícios previstos estão prioridade na análise de pedidos de restituição, ressarcimento e reembolso, atendimento preferencial, prioridade de ingresso no Receita de Consenso, preferência em determinadas demandas perante a Administração Tributária e utilização da classificação como critério de desempate em licitações, respeitadas as preferências legais destinadas às microempresas e empresas de pequeno porte.

A empresa A+ também pode utilizar publicamente o selo, transformando sua regularidade tributária em elemento de comunicação institucional.

Esse movimento pode produzir uma consequência relevante: a classificação deixa de ser apenas uma ferramenta interna da Receita e passa a funcionar como sinal de governança, previsibilidade e menor risco tributário.

Em uma concorrência entre fornecedores, por exemplo, uma empresa A+ poderá apresentar o selo como evidência adicional de organização fiscal. Em uma operação de crédito, a classificação poderá ser usada para reforçar a percepção de capacidade de pagamento, qualidade dos controles internos e menor exposição a passivos.

Não significa que uma nota baixa produzirá automaticamente recusa de crédito ou perda de contratos. Significa que a empresa poderá ter de explicar por que sua classificação está abaixo da concorrência.

Uma nota baixa nem sempre significa sonegação

A classificação D não representa, por si só, conclusão de fraude, sonegação ou existência de passivo tributário definitivo.

A nota pode ser afetada por cadastro desatualizado, declarações omitidas, pagamentos em atraso, divergências entre obrigações acessórias ou inconsistências geradas por sistemas e procedimentos internos.

Esse é um ponto importante: uma empresa pode possuir certidão negativa e, ainda assim, apresentar problemas de consistência capazes de reduzir sua classificação.

Por isso, o Receita Sintonia não deve ser tratado apenas como uma consulta sobre débitos. Ele funciona também como diagnóstico sobre a qualidade da operação fiscal da empresa.

O risco está nas informações que não conversam entre si

Na prática, muitas classificações baixas podem estar associadas ao desencontro entre diferentes áreas da organização.

O faturamento emite o documento fiscal. A contabilidade registra a operação. O setor tributário apura os impostos. O financeiro realiza o pagamento. O departamento pessoal transmite informações trabalhistas e previdenciárias. Sistemas diferentes alimentam declarações diferentes.

Quando esses dados não se conciliam, a inconsistência passa a ser visível para a Receita.

Com o avanço da digitalização, o Fisco não precisa aguardar uma fiscalização presencial para identificar problemas. Ele compara informações prestadas pela própria empresa, por clientes, fornecedores, instituições financeiras, empregados e outros agentes econômicos.

A nota é, em grande medida, o resultado dessa capacidade de cruzamento.

Estar classificado como A+ também exige vigilância

A obtenção do selo não encerra o trabalho de conformidade.

Em julho de 2026, a Receita começou a enviar comunicações aos contribuintes A+ que apresentavam débitos em aberto, alertando que a falta de regularização poderia afetar sua permanência no programa e levar ao cancelamento do selo.

O cancelamento também pode ocorrer em situações como irregularidade cadastral não corrigida, decretação de falência ou liquidação, medida cautelar fiscal e enquadramento como devedor contumaz. O Selo Sintonia possui validade de um ano, ressalvadas as hipóteses de cancelamento de ofício.

A mensagem é clara: a classificação máxima não deve ser vista apenas como prêmio, mas como condição que precisa ser continuamente protegida.

O que precisa entrar na pauta da empresa agora

A primeira providência é consultar a classificação atual e identificar quais indicadores estão reduzindo a nota.

A empresa deve verificar se o problema está no cadastro, na entrega de obrigações, na consistência dos dados ou nos pagamentos. Caso exista divergência na avaliação, também é possível solicitar sua revisão pelos canais digitais da Receita Federal.

A análise precisa envolver contabilidade, fiscal, financeiro, tecnologia, departamento pessoal, auditoria e jurídico. Corrigir apenas um débito isolado pode não resolver uma nota baixa quando a causa está na integração dos sistemas ou na qualidade das informações transmitidas.

Também é recomendável definir uma política sobre a divulgação da classificação. Uma empresa bem avaliada poderá utilizá-la estrategicamente em negociações, licitações, operações de crédito e processos de homologação. Uma empresa com nota baixa precisará estabelecer um plano de correção antes que a informação seja solicitada por um parceiro comercial.

A pergunta deixou de ser apenas se a empresa deve ao Fisco

Durante muito tempo, a principal comprovação de regularidade tributária foi a certidão fiscal.

Agora, uma nova pergunta começa a surgir: além de não possuir débitos impeditivos, qual é o nível de conformidade dessa empresa?

Clientes e bancos ainda podem não perguntar pela classificação em todas as operações. Mas, quando começarem a perguntar, a empresa precisará decidir se mostrará uma credencial de confiança — ou se apresentará um problema que ainda não sabia que possuía.

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